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Marise Manoel

América

 

Cresce dentro das cidades 

a carnadura de pó 

que suplica tempestades 

e 

a cabeleira das árvores

que juntas iniciam

a divisão da vida 

com seus martelos

que ferem mãos. 


Cresce dentro dos corações

a rachadura dos tetos

e dos pulmões 

a faina clandestina das manhãs

cresce o barulho de unhas

riscando o chão.


Dentro das cidades e 

em cada sobra de luz

sob o arco escuro 

o que cresce é 

o alvoroço dos dedos 

buscando o futuro.


Tudo cresce

e é mar em rebeldia 

febre disseminada pelas areias 

pele que se descobre tardia 

entre rochas e golpes 

das ondas frias 

o povo 

este oceano que não dorme 

e nem se desalinha. 


O povo cresce 

não como menino 

contando bolinhas 

cresce como edifício 

de baixo para cima 

como raiz 

entre pedras e ervas daninhas.


Eu não poderia dizer 

vida 

toda ranhura de seus dias 

e 

suas limas 

nas costas do cotidiano 

dizer ave sumida 

nos ninhos de arame 

da América Latina. 


Porque cresce dentro das valetas 

a espessura do barro 

no ferro das picaretas 

e 

a fúria do galo 

no ombro dos operários 

levanta o sol na manhã cinzenta 

e fala por si

o trabalho das fornalhas 

nas arestas deste corte: América.